Uma história de rupturas, estradas, mãos na terra e comunidade.
Há momentos na vida em que tudo desmorona ao mesmo tempo. Para mim, foi assim: o fim de um grande amor, uma separação que doeu fundo. As produtoras de cinema em que eu trabalhava em Porto Alegre fechando uma atrás da outra. Uma sociedade num bar que também quebrou. E no meio de tudo isso, acompanhar os últimos meses do câncer de pulmão do meu pai, até ele partir.
Quando a poeira baixou, peguei uma Parati, adaptei o banco traseiro pra virar uma cama, e fui. Atravessei o norte da Argentina e cheguei ao Deserto do Atacama. Aquela viagem me disse algo claro: era isso que eu queria. Não o Atacama especificamente — mas aquela liberdade, aquela simplicidade, aquele movimento.
Decidi que ia montar uma Camper de verdade. Comecei a lixar, parafusar, pintar, soldar. Aprendi sobre madeira, sobre ferro, sobre ferramentas. Reencontrei algo que estava guardado: os conhecimentos do meu avô carpinteiro e do meu pai. E descobri algo que não esperava: o trabalho manual é meditativo. Cada hora naquele projeto era uma hora dentro de algo concreto, real, que eu podia tocar e ver crescer.
Quando a Kombi ficou pronta, eu parti.
El Chaltén, Patagônia Argentina
Viajar com a Kombi me ensinou sobre minimalismo de um jeito que nenhum livro ensinaria. Quando tudo que você tem cabe num espaço pequeno, você começa a questionar o que realmente precisa. Fui deixando coisas pra trás — não só objetos, mas hábitos, certezas, formas de ver o mundo.
A estrada me levou pela Carretera Austral, no sul do Chile. Lá eu encontrei algo que me tocou fundo: pessoas vivendo sob a força da natureza. Não como metáfora — como realidade. Geleiras que se rompem, vulcões que ditam o calendário, invernos que congelam tudo. As pessoas daquele lugar não têm opção: elas vivem no ritmo da natureza porque a natureza não espera.
Olhei pra aquilo e pensei: isso é correto. A vida nas grandes cidades nos desconectou completamente dos ciclos naturais. Essa percepção plantou uma semente.
Quando o mundo parou em 2020, muita gente começou a fazer as mesmas perguntas que eu já vinha fazendo na estrada. De onde vem minha comida? Quem controla minha água? O quanto dependo de sistemas que estão longe de mim e que podem falhar?
A pandemia me avisou pra buscar uma vida na natureza. Foi nessa busca que vi, quase por acaso, um vídeo sobre construção em Super Adobe. Pensei: eu consigo fazer isso. Eu consigo construir a minha própria casa. Fui até Guaraciaba, no oeste de Santa Catarina, onde conheci o Ricardo e fiz meus primeiros cursos de bioconstrução. Aprendi sobre conforto térmico, arquitetura biodinâmica, sobre construir pensando em viver bem. Comecei a enxergar beleza nas formas rústicas — não apesar da rusticidade, mas por causa dela.
Com o Gio Manfroi, fui até Urubici, onde ele tinha comprado uma terra. A ideia era passar uma semana. Ficamos quase um ano.
A gente construiu uma cabana praticamente sozinhos, eu na minha Kombi, ele na van dele, no meio do mato, no segundo ano da pandemia. Sem conforto, sem rede. Só trabalho duro e natureza.
Naquele tempo, aprendi sobre água — sobre o quanto é precioso esse recurso. Aprendi que eu sabia construir de verdade. E aprendi, talvez o mais importante: viver sozinho na natureza é muito pesado. A vida no campo é dura. E ela pede coletividade.
Saí de Urubici sabendo que precisava de comunidade.
Em Ubatuba, fui viver no sítio Simple Life, com o Rafa e a Sheila. Construí cabanas com bambu gigante colhido no Morro do Corcovado. Vivia na beira da praia, num estilo alternativo e tranquilo. Ali já havia uma coletividade funcionando — pessoas dividindo tarefas, uns na construção, outros na cozinha.
Mas vi também os conflitos. E entendi que viver em coletivo não é nada fácil.
Aprendi muito sobre bambu. E aprendi que a coletividade é um exercício permanente, não um destino que se alcança.
Saramandala, Sarapuí — SP
Fui ao Sítio Saramandala, em Sarapuí, interior de São Paulo. Lá conheci o Felipe, a Jéssica e o Jorge Maron — referência brasileira em domos geodésicos. Virei sócio do Jorge num curso de domos geodésicos que até hoje vendemos juntos.
Com o Jorge aprendi sobre Buckminster Fuller e toda a filosofia por trás das estruturas geodésicas — a matemática da natureza, a eficiência das formas, uma visão de mundo que vai muito além da construção. Trabalhei ao lado de carpinteiros e construtores — mestres de ofício — e aprendi a respeitar profundamente esse conhecimento de base.
Aprendi também a gravar e vender cursos online — o que hoje tem conexão direta com o que faço no Destino Ecovila.
Em maio de 2023, vim fazer o programa Trabalho e Vida na Escola da Natureza — um mês de imersão. Fiquei como voluntário. Depois como apoio. Depois entrei na equipe. Já faz três anos que moro em Piracanga.
Aqui pintei ocas, trabalhei em mutirões, recolhi lixo da praia, aprendi sobre compostagem na prática, passei a usar só produtos biodegradáveis. Entrei na A.mor — Associação de Moradores — e passei a trabalhar em GTs, grupos de trabalho que tentam resolver os pontos que a vila precisa. Aprendi sobre tomada de decisão por consentimento, fiz curso de resiliência climática e concluí meu PDC — Permacultura Design Certificate.
E reconfirmei o que aprendi em Ubatuba: viver em coletivo é o maior dos desafios. As pessoas aqui são a maior maravilha de Piracanga — e também o maior teste. Não tem atalho. É um exercício diário.
Piracanga, Bahia
Madeira. Ferro. Painéis solares. Água. Bambu. Domos geodésicos. Bioconstrução. Agrofloresta. Compostagem. Comunidade. Permacultura.
Cada um desses temas tem um lugar na minha história. Cada um deles tem um lugar no Destino Ecovila.
O projeto nasceu dessa jornada. Não é uma ideia de quem leu sobre ecovilas — é a síntese de quem viveu, construiu, errou, aprendeu e quis compartilhar. O Destino Ecovila existe pra mostrar que esses caminhos são possíveis, que esses aprendizados são acessíveis, e que pequenos passos na direção de uma vida mais simples, mais coletiva e mais conectada à natureza podem transformar não só quem os dá — mas o mundo ao redor.
Estou construindo esse caminho junto com você.
— Tiago, Piracanga, Bahia